Blog Canto Maternar

Você se permite não se sentir bem? Consegue validar seus sentimentos?

(repost de texto publicado em agosto de 2017, quando a Nara tinha 2 anos e 6 meses)

Hoje eu acordei com a pá virada. Sabe aqueles dias em que você está com a casa interna toda bagunçada e ainda tem uma noite mal dormida?

Pois acabou sobrando pra Nara, coitada. Ela, que sempre costuma dormir até tarde, justo hoje resolveu madrugar. Eu, que sempre arrisco dormir tarde e que tenho passado as madrugadas trampando porque estou sem cuidadora até meados de setembro, acabei me dando mal. Resultado? Passei a manhã irritada e sem paciência, gritei e me desculpei com ela inúmeras vezes.

Esponjas que são nessas horas, claro que ela começou a ficar cada vez mais desafiante, absorvendo meu estresse, e eu, num efeito bola de neve, cada vez mais intolerante. Foi uma manhã intensa, daqueles dias que você só quer que o mundo pare pra você descer, sabe? Cheguei a ir pro quarto dar um grito dentro do travesseiro, mas a raiva não passou.

Menos mal que minha sogra voltou de viagem e se ofereceu para ficar a manhã com a Nara. Eu já nem sei há quantas semanas estou com ela todos os dias sem descanso. Não, não estou cuidando dela sozinha, meu marido é bem ativo na paternidade, mas faz semanas que não tenho tempo para mim. Não escapei uma única vez para me fazer um agrado, sair com amigas ou qualquer mimo dedicado a mim. Relaxo meu, devia ter me organizado pra isso.

No caminho para o ponto de ônibus, expliquei:

Filha, mamãe está muito nervosa hoje, eu queria que algumas coisas estivessem acontecendo de um jeito e não estão, por isso estou sem paciência. Me desculpe, hoje não estou te tratando muito bem, eu sei. Preciso de um tempo para ficar sozinha e me acalmar. Vou te deixar na vovó durante a manhã e depois nos encontramos pra almoçar, eu vou estar um pouco melhor.

– Eu cuido de você, mamãe.

– Ô, minha linda! Você quer me ajudar? Acho que preciso de um abraço! Você pode me dar um abraço?

– Sim!

E a pequena me abraçava. Chegando na casa da minha sogra, ela soltou a língua como se fosse a maior novidade:

– Mamá está muy enfadada! Está sin paciencia!

Minha sogra e sua irmã não entenderam direito. Eu tenho muita sorte porque minha sogra não se intromete na minha forma de educar, mas acho que às vezes ela se perde um pouco nas minhas ideias . Sua irmã tentou corrigir a Nara, afirmando que eu estava bem, que não tinha nada. Mas eu logo deixei claro que era isso mesmo:

– A Nara tá certa, eu estava dizendo a ela que hoje acordei sem paciência e nervosa, que não dormi bem. E que preciso ficar um pouco sozinha pra me acalmar. Afinal, todos temos direito a ter um mau dia, certo?

– Eu cuido de você, mamãe, repetiu a pequena. E começou a me encher de abraços.

E lá fui eu a um bar em Malasaña tomar um chá de camomila enquanto trabalhava com o laptop. No caminho para o bar eu respirava fundo e tentava me conectar com o momento presente, pensando que eu tinha direito de ter um mau dia e que tinha que prestar atenção ao que estava acontecendo dentro de mim.

Uma das lições que a maternidade tem me trazido é sobre a importância de validar os MEUS sentimentos. A medida que vou aprendendo a amparar a Nara nas crises dela, que lhe deixo claro que está tudo bem sentir raiva ou tristeza, que é normal ter dias ruins, me dou conta do quanto estava deixando de me amparar nessas mesmas situações. E o quanto é difícil aceitar esse contato com meu lado vulnerável.

Só que fica incoerente, né? As crianças aprendem com o exemplo e antes de esperar que ela saiba lidar com os sentimentos dela, tenho que aprender a lidar com os meus. Se quero que ela se sinta segura apesar de estar se sentindo mal, se quero que se sinta livre para se expressar, tenho que saber acolher a mim mesma em situações similares, certo? Portanto, minha conclusão sempre volta a ser: o caminho para a educação é a autoeducação. A maternidade sim é um convite para enfrentarmos nossas sombras, o que temos que arrumar dentro de nós que está adormecido, inconsciente, na zona de conforto. Não é fácil, mas pode ser encarado como uma grande oportunidade para crescer.

Texto: Maíra Soares, Canto Maternar (escrito em agosto de 2017, quando a Nara tinha 2 anos e 6 meses)

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